Entre 2025 e 2026, o mercado de pagamentos agênticos avançou com o lançamento de programas, protocolos e produtos voltados a permitir que agentes de inteligência artificial participem de jornadas de compra e pagamento.
Empresas do setor de pagamentos desenvolveram novas infraestruturas para esse ecossistema, embora cada iniciativa tenha um escopo e um nível de maturidade diferentes.
No Brasil, esse movimento também começou a avançar, apoiado pela infraestrutura de pagamentos instantâneos do Pix e pelos mecanismos de iniciação de pagamentos do Open Finance. Essas tecnologias abrem espaço para jornadas em que agentes de IA participam da preparação e iniciação de transações, respeitando os requisitos de consentimento, autenticação e segurança.
A mudança traz uma nova camada de complexidade para os pagamentos digitais. Quando um agente participa da escolha, iniciação ou execução de uma compra, o ecossistema precisa comprovar quem está agindo, qual autoridade o usuário concedeu e quais limites valem para aquela transação.
Este conteúdo explica como os pagamentos agênticos funcionam, quais iniciativas estão moldando o mercado e o que instituições financeiras, empresas de meios de pagamento e varejistas precisam considerar para operar nesse novo cenário.

O que são pagamentos agênticos?
Pagamentos agênticos são transações em que um agente de inteligência artificial participa da iniciação ou da execução do pagamento em nome de um usuário, com autorização e controles definidos para aquela interação.
O nível de autonomia pode variar. Em algumas jornadas, o agente pesquisa opções, organiza a compra e apresenta a transação para que o usuário aprove o pagamento final. Em outras, o usuário delega previamente determinados limites, e o agente pode concluir a compra quando as condições estabelecidas forem atendidas. Protocolos como o AP2, do Google, já contemplam esses dois cenários.
Essa característica diferencia o pagamento agêntico de automações mais tradicionais. Em um pagamento recorrente, por exemplo, valor, periodicidade e fornecedor costumam estar previamente definidos. Já em uma jornada agêntica, o agente pode interpretar uma intenção, avaliar alternativas e participar de decisões que acontecem antes do pagamento.
Também existem diferenças em relação aos chamados pagamentos invisíveis, comuns em serviços como mobilidade. Nesse modelo, o checkout desaparece da experiência, mas a ação que origina a cobrança continua sendo iniciada diretamente pelo usuário. Nos pagamentos agênticos, parte dessa jornada pode ser delegada ao agente.
Pagamentos agênticos e comércio agêntico: qual é a diferença
Comércio agêntico é um conceito mais amplo e abrange a jornada em que agentes ajudam a descobrir produtos, comparar ofertas, selecionar opções, montar pedidos e avançar até a compra.
O pagamento agêntico representa a camada financeira dessa jornada, ou seja, os mecanismos que permitem transformar uma decisão ou autorização em uma transação.
Essa separação é importante porque descoberta e pagamento exigem controles diferentes. Um agente pode consultar catálogos, comparar preços e montar uma cesta sem ter acesso a qualquer capacidade financeira. Para avançar ao pagamento, entram questões adicionais de identidade, autorização, credenciais, prevenção a fraude e rastreabilidade.
Por isso, comércio agêntico não significa necessariamente pagamento autônomo. O usuário pode continuar aprovando explicitamente a transação final, como acontece em algumas implementações atuais. Empresas já descrevem modelos que combinam diferentes graus de participação humana e autonomia do agente.
Como funciona o fluxo de um pagamento agêntico
Ainda existem diferentes arquiteturas para pagamentos agênticos, mas as principais iniciativas do mercado compartilham alguns requisitos: autoridade do usuário, identidade do agente, acesso controlado ao meio de pagamento, validação da transação e rastreabilidade.
A forma como cada requisito é implementado varia conforme o protocolo, a rede de pagamentos e o tipo de transação.
Delegação e autorização
O ponto de partida é definir até onde o agente pode atuar em nome do usuário.
Em uma compra supervisionada, essa autorização pode acontecer no momento final da jornada. O agente encontra a opção, prepara o pedido e o usuário confirma antes da execução.
Já em fluxos delegados, os limites podem ser estabelecidos previamente. Um usuário pode, por exemplo, autorizar a compra de uma passagem até determinado valor, dentro de um período e respeitando critérios específicos.
O AP2, do Google, formaliza essa lógica por meio de mandates, contratos digitais assinados criptograficamente. O protocolo diferencia um Intent Mandate, que registra a intenção e as condições definidas pelo usuário, de um Cart Mandate, que registra os itens e valores efetivamente aprovados ou gerados dentro dos parâmetros autorizados.
Outras arquiteturas usam mecanismos diferentes. Por isso, o mandato é um exemplo de como registrar a autoridade do agente, e não uma etapa obrigatória de todo pagamento agêntico.
Identidade do agente
Depois de estabelecer a autoridade, o ecossistema também precisa identificar quem está tentando executar a ação.
Esse requisito ganhou importância porque comerciantes já recebem grandes volumes de tráfego automatizado e precisam diferenciar agentes legítimos de bots maliciosos.
O Trusted Agent Protocol, da Visa, atua justamente nessa camada. O protocolo permite que agentes apresentem assinaturas digitais verificáveis, que o comerciante pode validar para confirmar sua identidade e a intenção associada à interação.
Nesse contexto, o mercado também passou a utilizar expressões como Know Your Agent, ou KYA, para representar a necessidade de reconhecer e estabelecer confiança sobre agentes que participam de operações financeiras.
Credenciais e acesso ao pagamento
A autoridade concedida ao agente também precisa chegar ao meio de pagamento de forma controlada.
Uma das abordagens utilizadas é a tokenização. Em vez de expor diretamente as credenciais originais do usuário, algumas plataformas emitem tokens com escopo definido para aquela jornada.
A Stripe, por exemplo, criou os Shared Payment Tokens (SPTs). Eles permitem que um agente inicie uma transação com a permissão do comprador sem receber os dados originais do meio de pagamento. Esses tokens podem ser limitados por comerciante, valor ou período e também podem ser revogados.
A Mastercard segue uma lógica semelhante com os Mastercard Agentic Tokens, construídos sobre sua infraestrutura de tokenização já utilizada em outros tipos de pagamento digital.
O modelo específico, entretanto, depende da infraestrutura utilizada. Algumas jornadas podem combinar tokens de rede, credenciais verificáveis, autorizações bancárias ou mecanismos próprios do arranjo de pagamento.
Validação e execução
Antes da liquidação, comerciante, instituição financeira ou provedor de pagamento precisa verificar se a transação está de acordo com a autoridade concedida e com os controles de risco aplicáveis.
O nível de participação humana também varia nessa etapa.
No Instant Checkout lançado por OpenAI e Stripe, por exemplo, o usuário confirma explicitamente a compra antes da execução, enquanto o comerciante continua responsável por processar o pedido e o pagamento em sua própria infraestrutura.
No Brasil, jornadas de pagamento agêntico podem utilizar a infraestrutura do Pix e do Open Finance, respeitando os requisitos de consentimento e autenticação do usuário para a movimentação financeira.
Essas diferentes possibilidades mostram que os pagamentos agênticos podem combinar autonomia do agente com pontos explícitos de aprovação humana, dependendo do caso de uso e das regras da infraestrutura.
Rastreabilidade e pós-compra
Depois da transação, a organização precisa preservar uma trilha que permita reconstruir o que aconteceu.
Esse registro pode incluir qual agente participou da operação, qual autorização estava vigente, quais parâmetros foram utilizados, quando a ação ocorreu e quais sistemas validaram a transação.
Essa rastreabilidade sustenta conciliação, monitoramento, auditoria e tratamento de disputas. Além disso, torna-se especialmente importante em jornadas delegadas, nas quais a prova de autorização pode estar distribuída entre consentimentos, credenciais, tokens e registros gerados ao longo da interação.
Os protocolos e iniciativas que estão moldando o mercado
A infraestrutura de pagamentos agênticos está evoluindo por diferentes frentes. Redes de cartões, plataformas de IA e empresas de pagamentos estão desenvolvendo mecanismos próprios, ao mesmo tempo em que buscam interoperabilidade.
| Iniciativa | Foco principal |
| Mastercard Agent Pay | Programa lançado em abril de 2025 que utiliza Agentic Tokens para permitir pagamentos em experiências conduzidas por agentes. |
| Visa Intelligent Commerce e Trusted Agent Protocol | O Visa Intelligent Commerce abriu a infraestrutura da rede para experiências agênticas em abril de 2025. Em outubro, o Trusted Agent Protocol acrescentou mecanismos para que comerciantes reconheçam agentes confiáveis por meio de assinaturas verificáveis. |
| Google AP2 | Protocolo aberto e agnóstico ao meio de pagamento, lançado em setembro de 2025, com foco em autoridade, autenticidade e rastreabilidade por meio de mandatos e credenciais verificáveis. |
| Google UCP | Padrão aberto para a jornada mais ampla de comércio agêntico. Foi apresentado em janeiro de 2026 e é compatível com AP2, além de permitir integrações por APIs, A2A e MCP. |
| OpenAI e Stripe ACP | O Agentic Commerce Protocol foi desenvolvido pelas duas empresas para conectar agentes e comerciantes em fluxos de compra. O Instant Checkout do ChatGPT foi uma das primeiras implementações comerciais baseadas no protocolo. |
| Stripe Shared Payment Tokens | Tokens criados para permitir pagamentos iniciados por agentes sem expor as credenciais originais do comprador, com possibilidade de restrições por comerciante, valor e tempo. |
Embora essas iniciativas tratem de problemas semelhantes, elas atuam em diferentes pontos da jornada de pagamento.
O TAP, por exemplo, ajuda comerciantes a reconhecer agentes confiáveis; o AP2 estrutura autorização e evidências da intenção do usuário; já o ACP organiza a interação entre agentes e comerciantes. Os SPTs e os Agentic Tokens, por sua vez, atuam na camada de credenciais utilizadas para viabilizar o pagamento.
Como essas soluções precisam funcionar em conjunto, a interoperabilidade se tornou uma questão central para o avanço dos pagamentos agênticos. O UCP foi desenvolvido justamente com essa lógica, permitindo integração com outros protocolos e padrões utilizados por agentes.
A Stripe também vem ampliando seus tokens de pagamento para funcionar com iniciativas da Mastercard e da Visa, sinalizando um movimento de aproximação entre diferentes ecossistemas.
Como os pagamentos agênticos podem avançar no Brasil
O Brasil já possui uma infraestrutura que pode ser utilizada por novas experiências agênticas: Pix para pagamentos instantâneos e Open Finance para iniciação de pagamentos com consentimento do cliente.
No Open Finance, a iniciação é realizada por instituições participantes autorizadas a prestar esse serviço. O iniciador envia a solicitação, enquanto os recursos continuam sendo movimentados pelas instituições que mantêm as contas envolvidas.
Agentes de IA podem funcionar como uma nova interface sobre essa infraestrutura, desde que a execução financeira continue respeitando as regras e os participantes autorizados do ecossistema.
A integração pode ocorrer por meio de APIs e protocolos que permitem aos agentes interagir com sistemas externos. A adoção dessas arquiteturas, porém, depende dos controles de autorização, segurança e rastreabilidade exigidos em cada operação.
Segurança e confiança nos pagamentos agênticos
À medida que agentes ganham capacidade para participar de transações, os controles de segurança precisam acompanhar essa mudança.
O desafio central passa por comprovar autoridade, reconhecer agentes legítimos, limitar o alcance das credenciais e identificar comportamentos suspeitos antes da execução financeira.
Consentimento e autoridade verificáveis
A organização precisa conseguir demonstrar que o agente tinha autorização para participar daquela transação.
Essa evidência pode assumir formatos diferentes. No AP2, aparece por meio de mandatos criptograficamente assinados. Em outras infraestruturas, pode estar associada a tokens, consentimentos bancários ou confirmações explícitas realizadas durante a jornada.
O princípio, porém, é semelhante: a autoridade concedida ao agente precisa ser registrada de forma verificável e compatível com o nível de autonomia permitido.
Autenticação de agentes de IA
Além de validar o usuário, comerciantes e provedores precisam reconhecer o agente que está interagindo com seus sistemas.
Esse controle ajuda a distinguir agentes autorizados de bots, scripts maliciosos ou sistemas que tentam se passar por uma plataforma confiável.
Para isso, mecanismos de autenticação e verificação de identidade ajudam a estabelecer uma relação de confiança entre agentes e comerciantes.
Mínimo privilégio e proteção das credenciais
A permissão concedida ao agente também precisa respeitar o princípio do mínimo privilégio.
Na prática, isso significa limitar uma credencial pelo contexto necessário para executar a tarefa, como comerciante, valor, período, tipo de operação ou finalidade.
Dessa forma, mesmo que uma credencial seja utilizada indevidamente, os limites estabelecidos ajudam a restringir o alcance das operações que podem ser realizadas.
Fraude e segurança dos próprios agentes
Os modelos de prevenção à fraude também precisam incorporar novos sinais.
Agentes legítimos podem gerar padrões de navegação e transação diferentes dos usuários humanos, enquanto bots maliciosos podem tentar imitar esse comportamento. Como resultado, a identidade do agente, o contexto da autorização, a reputação e os sinais transacionais ganham peso adicional na análise de risco.
Além disso, os próprios sistemas de IA introduzem novas superfícies de ataque. O prompt injection, por exemplo, pode tentar manipular o comportamento de um agente por meio de instruções maliciosas presentes em conteúdo, APIs ou fontes externas.
Por isso, controles financeiros críticos, como beneficiários autorizados, valores máximos e confirmação de operações sensíveis, precisam ser protegidos por mecanismos independentes do conteúdo interpretado pelo modelo.
Responsabilidade e disputas
Outro ponto em evolução é a forma como transações agênticas serão tratadas quando houver erro, fraude ou contestação.
A responsabilidade pode depender de diversos fatores, como regras do arranjo de pagamento, contratos entre os participantes, legislação aplicável, origem da falha e evidências de autorização disponíveis.
Por esse motivo, trilhas de auditoria e evidências de consentimento ganham importância operacional. Elas ajudam a reconstruir a jornada e determinar se o agente atuou dentro da autoridade que recebeu.
O que instituições financeiras e o varejo precisam preparar
A adoção de pagamentos agênticos exige preparação em diferentes camadas da arquitetura. O objetivo é permitir que agentes interajam com serviços financeiros e comerciais sem perder controle, rastreabilidade e segurança.
Entre os pontos que merecem atenção estão:
- APIs e interfaces preparadas para interação por agentes: catálogos, disponibilidade, pedidos e pagamentos precisam oferecer dados estruturados e controles adequados para integrações máquina a máquina;
- Identidade e autorização: a arquitetura precisa diferenciar usuário, agente e plataforma, além de registrar com clareza quais ações foram autorizadas e dentro de quais limites;
- Escalabilidade e processamento em tempo real: agentes podem gerar interações simultâneas e novos padrões de uso, exigindo baixa latência, disponibilidade e capacidade de absorver picos;
- Observabilidade e trilha de auditoria: cada transação precisa manter contexto suficiente para monitoramento, conciliação, investigação e eventual contestação;
- Prevenção à fraude adaptada ao tráfego agêntico: motores de risco precisam incorporar sinais de identidade do agente, contexto da autorização e comportamento automatizado;
- Governança de IA e segurança: agentes com capacidade de movimentar recursos exigem controles contra prompt injection, uso indevido de credenciais, acesso excessivo e manipulação de contexto;
- Acompanhamento regulatório: quando Pix, Open Finance, cartões ou outros arranjos são utilizados, continuam valendo as regras desses ecossistemas, além das exigências aplicáveis de proteção de dados, segurança e prevenção a fraude.
Essas frentes também precisam ser avaliadas em conjunto. Uma experiência fluida para o usuário depende de controles de identidade, risco e observabilidade funcionando dentro da própria jornada de pagamento, e não como verificações posteriores.
Como a Nava apoia essa transformação
A evolução dos pagamentos agênticos combina desafios que já fazem parte de ambientes críticos de meios de pagamento: integração, processamento em tempo real, observabilidade, prevenção a fraude, identidade e proteção de dados.
A Nava reúne experiência em meios de pagamento, automação e monitoramento de operações transacionais, incluindo projetos voltados à redução de falhas, observabilidade e escalabilidade em ambientes de alta criticidade.
Na frente de cibersegurança, capacidades como Gestão de Identidades, Data Protection, Fraud Detection e AI Security apoiam controles diretamente relacionados a jornadas agênticas, desde governança de acessos até análise de fraude e proteção contra ameaças específicas de sistemas de IA.
A combinação dessas competências permite trabalhar a transformação de forma integrada, conectando arquitetura, operação e segurança para preparar sistemas que precisam processar novas formas de interação com confiabilidade e escala.
Fale com nossos especialistas para avaliar como sua organização pode se preparar para a evolução dos pagamentos agênticos.
Perguntas frequentes
O Brasil já tem infraestrutura para pagamentos agênticos?
O Brasil já possui infraestrutura para viabilizar experiências de pagamento agêntico, especialmente por meio do Pix e do Open Finance. Essas tecnologias permitem integrar agentes de IA a jornadas financeiras que utilizam mecanismos regulamentados de iniciação, consentimento e autenticação.
A adoção de pagamentos agênticos ainda está em desenvolvimento, com diferentes possibilidades de implementação, níveis de autonomia e mecanismos de autorização.
Um agente de IA pode pagar sem a aprovação do usuário no momento da compra?
Pode, dependendo da arquitetura e da autorização concedida previamente.
Alguns modelos mantêm aprovação humana no momento da compra, como o Instant Checkout da OpenAI. Outros foram desenhados para permitir tarefas delegadas, nas quais o usuário estabelece previamente critérios como valor, prazo e condições, e o agente pode executar a transação quando esses requisitos forem atendidos.
O AP2, por exemplo, contempla tanto jornadas com o usuário presente quanto tarefas delegadas com autorização prévia.
Quem é responsável se um agente fizer uma compra indevida?
Ainda não existe uma resposta única para todos os modelos de pagamento agêntico.
A responsabilidade depende das regras do meio de pagamento, contratos entre os participantes, legislação aplicável, origem do erro e evidências de autorização da transação.
Por isso, mecanismos que registrem identidade do agente, consentimento, parâmetros autorizados e histórico da operação são importantes para investigação e tratamento de disputas.